Lorenzo Carvalho é um brasileiro de 21 anos que chegou a Portugal no ano passado

Vivendo ostentando riqueza e dando festas de luxo. Filho de uma família com negócios nas pedras preciosas e cosmética, viveu entre o Brasil e Itália, tornou-se piloto da Ferrari em GT3 e diz querer comprar o Autódromo do Estoril. É apenas mais uma das suas extravagâncias...

 

Parece que estamos a entrar na caixa-forte de um banco. O condomínio onde vive o jovem piloto de Ferraris Lorenzo Carvalho, na linha do Estoril, está cercado de seguranças. Na garagem, uma coleção de carros impressionantes - quatro Ferraris, um Bentley, um Porsche Cayenne, um Fiat 500 com 500 cavalos... Lorenzo surge sorridente.

É difícil dizer no que se repara primeiro - as tatuagens que lhe sobem pelo pescoço e vão até aos dedos, o boné, que raramente tira, ou os sapatos com tachas e sola vermelha louboutiana... Não quer passar despercebido, este jovem.

 
Aliás, desde que se mudou para Portugal, no verão passado, com os pais - Cleyci Rita de Carvalho, brasileira, e Luiz Carlos Leal, luso-brasileiro, filho de portugueses da Guarda -, tem promovido eventos para atrair jornalistas e figuras públicas. No passado fim de semana, com uma enorme festa, encheu a discoteca Lust, no Terreiro do Paço. E o anúncio de que quer comprar o Circuito do Estoril surpreendeu tudo e todos.
 
E quem é este rapaz que chegou a Portugal vindo do nada e surpeende por ostentar a sua riqueza? Lorenzo Carvalho Leal tem 21 anos. Nasceu em Goiânia, estado de Goiás, no Brasil, mudou-se com apenas 2 dias para São Paulo, onde viveu até por volta dos 5 anos. Por essa altura, conta, começaram as viagens frequentes a Milão, por conta dos negócios da mãe. «Os meus avós comercializavam pedras preciosas e ela estava nesse ramo também», explica.
 
Uma série de infortúnios parece ter conduzido à mudança para a Europa. «A nossa família foi morrendo, tudo mortes trágicas - a minha tia suicidou-se, a minha avó morreu afogada, o meu tio queimado numa explosão num acidente de carro - e a minha mãe não quis ficar mais naquele país», diz. Ponderaram entre França, onde a mãe estudara Medicina, Milão, onde tinha negócios, ou Portugal, a terra dos avós paternos. Escolheram Itália, «para abrir o negócio da cosmética [atualmente, é administradora da marca Forêt Vierge] e ser aceite pelo mercado euro peu», justifica a mãe. Lorenzo tinha 9 anos.
 
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Um grito do Ipiranga precoce
 
A presença da mãe na vida de Lorenzo é uma constante. Filho único, vive com os pais que, divorciados, habitam a mesma casa. «Aos 13 anos, Lorenzo teve o seu primeiro carrinho», lembra a mãe, embevecida.
 
O adolescente conta que brincava com um SLC K200, um microcarro de fibra de carbono, assinado pela equipa da italiana ATR Group que desenvolveu o corpo e os chassis de supercarros como o Enzo Ferrari, o Porsche Carrera GT ou o Maserati MC 12, antes de ter idade para conduzir.
 
«A mãe sempre alimentou as loucuras dele e comprou os carros», graceja o pai.
 
Aos 16, Lorenzo terá decidido que não queria estudar. A mãe acedeu. «Quando eu tinha 16 anos, ela comprou-me três lojas de videogames, no centro de Milão, e comecei a ter a responsabilidade de gerir as minhas lojas, fazer as contas. Virou um trabalho e ficou chato, era melhor ter estudado», conta o piloto. Fez do seu passaporte um diploma: «Viajo a cada duas semanas, vou a Nova Iorque, França, aprendo muito mais conhecendo outras culturas.»
 
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"Trust no One"
 
A adolescência privilegiada foi protegida pela riqueza da família. E a um nível a que não estamos habituados. Quando cumpriu 17 anos, por exemplo, Lorenzo ganhou o primeiro Ferrari. Depois de conduzir um ano sem carta, achou que o modelo estava ultrapassado e quis trocar.
 
Um amigo, pai de família, que passou por certas dificulda-des e que ele trouxe para trabalhar com a sua mãe, apresentou-lhe um entendido em carros para fazerem negócio. «Nunca iria pensar que a pessoa com quem convivo todos os dias e que ajudo me vai prejudicar. Ingenuamente, entreguei o meu Ferrari e evaporou», recorda. Na sequência desse episódio fez uma tatuagem no peito que diz «Trust no one».
 
Desde os 13 anos que Lorenzo passou a colecionar no corpo símbolos, imagens, nomes. Começou com um pequeno dragão de Mulan , o filme da Disney, na perna, contra a vontade da mãe. Aos 17 entregava-se nas mãos de artistas de Los Angeles. Tem algumas especiais, como o Mike Tyson que leva ao peito, o «LA» no pescoço - a sua cidade favorita - e o nome «Laura» inscrito no braço, uma das mulheres da sua curta vida. Lorenzo é mulherengo e não esconde isso. É casado, tem uma filha, mas vai dizendo «sou homem, fazer o quê?». Mas protege a família dos holofotes e não fala mais sobre o assunto.
 
Milão, a cidade da moda onde vivia, era perfeita para a vida de alguém que não tem de fazer contas. Mas deixou de fazer sentido no verão passado. «Deixei para trás amigos e inimigos. Há muita gente que se faz passar por aquilo que não é e tenta sempre "te ferrar". O país estava muito complicado. Nesse último período era difícil achar alguém honesto. Estávamos trabalhando para o governo. Vim para Portugal revoltado», diz Lorenzo. A mãe corrobora a ideia: «Milão tornou-se muito agressiva.» Portugal revelou uma faceta humana a que o piloto já não estava habituado: «Aqui ainda se pode confiar em algumas pessoas.»
 
 
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O Negócio de que ninguém Fala
 
Lorenzo sempre teve motos, entrava em corridas, desafiava os limites. Há dois anos integra a equipa da Ferrari em GT3, depois de ter feito vários cursos de condução ativa com a marca, mesmo antes de ter idade para conduzir.
 
Estes cursos, na Ferrari, destinam-se a quem tem vários carros da marca e a participação nas corridas também é vendida - o pacote custa desde um milhão de euros, embora seja feita uma triagem aos pilotos que o pretendam fazer. Recentemente, Lorenzo correu a Dunlop 24H Dubai, em que a equipa AF Corse SRL 2 - juntamente com os pilotos italianos Lorenzo Case, Marco Cioci e o finlandês Mika Salo - acabou em segundo lugar. Agora aguarda o calendário das competições.
 
Lorenzo idolatra o piloto brasileiro Ayrton Sena e diz que essa é uma das razões por que veio a público falar na intenção de comprar o Circuito do Estoril (antigo Autó-dromo Fernanda Pires da Silva). «Era a pista favorita dele», argumenta. Mas, embora nas mesmas declarações, do início do mês, falasse na criação de uma escola Ferrari, agora dá o dito pelo não dito. «A marca zangou-se. Foi um mal-entendido. Eu quero ter uma escola de condução com diferentes marcas representadas.» Sobre o negócio do circuito diz que «é a mãe quem trata».
 
Cleyci Rita de Carvalho diz que não pode falar sobre o assunto, porque «o que foi noticiado prejudicou muito as negociações», escusando-se a revelar quem eram os interlocutores. Para já, apenas adianta que está «alugando espaços por dias». A Parpública, SGPS, empresa do Estado que trata dos processos de privatização e gestão de património imobiliário, na tutela do Ministério das Finanças, que tem também o dossier Circuito do Estoril, questionada sobre a possibilidade de venda, fez saber que «não existem quaisquer contactos ou negociações em curso que envolvam a Parpública relativamente a este processo».
 
O último concurso público foi lançado em 2007, por 35 milhões de euros. Houve um único candidato que não aceitou os valores do executivo de Sócrates e o autódromo permaneceu estatal.
 
Lorenzo encontra-se com a Notícias Magazine na sua casa do Estoril. Está sentado à cabeceira da mesa, de boné, que raramente tira. Só cede o lugar ao avô - que veio visitar a família na casa que compraram no Estoril, de frente para a marginal, o Chalet da Condessa d"Edla (a viúva de D. Fernando II). Na outra ponta, mamma nostra, como chamam à matriarca da família - a mãe. Pelo meio, um corrupio entre família do Brasil, amigos de Itália, o sócio da mãe na cosmética, do Lichten-stein. Acrescentam-se pratos à medida que vai chegando gente. Não há «frescuras», como diriam os brasileiros, há comida servida em travessas, riso solto e conversas que começam numa língua e acabam noutra. Os telemóveis da mãe tocam persistentemente, ela atende sempre, mas já ninguém estranha apesar de não a pouparem à reprimenda: «Dá para des ligar à mesa?». Não dá. Depois da refeição, o piloto continua a tratar dos preparativos
para a festa do dia seguinte, a Champanhe Shower Party, no Lust, em Lisboa, espaço que Lorenzo diz estar a negociar para a compra de uma parte maioritária. «Está com os advogados, mas quase tudo tratado.»
 
As festas são referências da sua vida. As de Saint-Tropez, Milão e Los Angeles, onde, garante, os amigos facilmente gastam «quinhentos, seiscentos mil ou um milhão por noite». E diz que já organizou eventos com mil pessoas, grandes DJ como Martin Solveig, DJ Ross e David Guetta. «Eles já passaram música para mim.» Na festa de aniversário dos 21 anos diz ter feito o recorde de uma discoteca ao comprar «duzentas garrafas de cristal [Louis Roederer]»- cada garrafa custa cerca de mil euros. «Diversão, mania ou ignorância, esse é o meu lado negro.»
 
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Tudo o que se pode comprar
 
É uma boa definição para a sua figura na noite da festa: apareceu sem boné, de pulseira tripla cravada de diamantes, T-shirt a deixar a descoberto as pinturas do corpo, pôs música, posou para os fotógrafos ao lado de figuras públicas como o cantor Mikael Carreira ou a actriz Sylvie Dias, o chef Henrique Sá Pessoa ou o escritor Domingos Amaral... Sempre ao seu lado, o segurança. «Tenho dois, são como meus irmãos, estamos 24 horas juntos. Não é questão de precisar, mas ajudam-me muito.»
 
Angel"s face, devil"s body é o lema de Lorenzo, dentro e fora de pista - é assim que se apresenta na sua página de internet. Um menino estranho, cujo espalhafato surpreen-de - por estas bandas é raro ostentar-se assim a riqueza, sobretudo em tempos de crise. O seu óbvio desafogo, explica-o a quem inevitavelmente o questiona com as origens e os negócios da família - nas pedras preciosas, dos avós, e na cosmética, da mãe. Ele próprio, que acabou de mostrar com orgulho a sua coleção de Ferraris ou sapatos Louboutin, garante que não é o consumo que o move. «Quando se tem a minha idade e tudo o que se quer - carros, joias, tudo - acaba-se por se perder a noção do valor do dinheiro, ir a certos sítios ajuda a perceber.»
 
Aponta a mesma razão para ajudar «120 crianças numa instituição no Brasil»,
doar o primeiro ano dos resultados da marca Understand 69 - em fase de lançamento, de momento com T-shirts à venda - às crianças do Instituto Português de Oncologia e associar-se à instituição Terra dos Sonhos. «Dar é fácil, eu gosto. Quando se tem tudo começa-se a procurar outro tipo de emoções. Isso ajuda a dar valor ao poder caminhar, ver, comer boa comida todos os dias.
 
A minha avó sempre falou que "dinheiro a gente não leva no caixão", por isso a gente gosta de partilhar.» Quando se fala de sonhos por concretizar não sabe o que responder. «Talvez chegar à F1 se tiver de ser»... Sempre teve tudo o que o dinheiro pode comprar.
 

 

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